Políticos atores ou atores políticos?

Em 1980, Reagan ganhou a eleição presidencial norte-americana. Estarrecidos e chocados, brincávamos aqui no Brasil que os EUA haviam finalmente sido estritamente técnicos e criado juízo: votaram num ator profissional para ocupar a Casa Branca (o que não se comprovou, Reagan mostrou-se um político de bom tamanho).

 

No Brasil e muitos outros países, a tradição vigente é a de engessar a expressão humana dos políticos num comportamento engravatado. Mas se o líder tem talento, surgem oportunidades. Veja neste vídeo o ator Obama ao lado do comediante Keegan Michael Key, produzido para o jantar do presidente com os correspondentes da imprensa em Washington, em abril deste ano.

 

 

 

Obama Anger Translator, o Tradutor Nervoso de Obama

 

 

Obama sabe e pode fazer isso. Sua intenção, claro, é avançar na construção da imagem de presidente “boa praça” em fim de mandato, que ele vem fazendo com habilidade.

 

Obama trabalha para sua biografia, como manda a melhor estratégia de comunicação política. Prepara o seu legado, já que nunca mais será candidato. Nos EUA, um presidente não pode se candidatar a nenhum outro cargo eletivo. Veste o pijama mesmo, vai para os bastidores e não pode mais voltar. Os ex-presidentes criam institutos com seus nomes e passam a viver de palestras.

 

No exercício do mandato, os mandatários norte-americanos não sacrificam a simbologia do cargo, apenas são mais atentos à comunicação de massas. Não fogem dela. E exibem descontração, humanidade, expõem suas vidas pessoais, o que é visto como natural pela sociedade.

 

Claro, essas é uma decisão deles e de suas equipes. Nas questões morais (adultérios, separações, etc), nas questões administrativas e em muitas outras, eles não podem cometer erros.

 

Mirando o legado, a ação de comunicação é feita com planejamento técnico e objetivo a ser atingido. No making of da apresentação de Obama com o comediante, produzido para as redes sociais, fica clara a preparação e intencionalidade da encenação, para a boa imagem pessoal do presidente.

Obama e Keegan Michael Key preparam a apresentação na Casa Branca

 

Mesmo usando linguagem criativa, Obama comporta-se como presidente e não como ator. Ele tem talento para isso, como Clinton e Al Gore, por exemplo. No vídeo, ele se mostra autor, não ator. Os dois vídeos foram planejados para conviver simultaneamente, complementando-se.

 

Obama é o presidente, não joga tudo na sua performance humorística, de stand-up commedy em um evento fechado. Ele prepara o making of como “vacina” à caricatura que fará em jantar na Casa Branca para mostrar-se “boa praça”. Faz isso para depois postar nas redes sociais, tirando o máximo de uma ação simples.

 

A ideia é reforçar que tudo não passou de uma brincadeira. Ele age com grande habilidade técnica e estratégica no episódio, afirmando o que deseja para a sua imagem pós-poder. Tudo muito bem planejado e sem riscos.

 

Políticos atores ou atores políticos? No Brasil, os políticos atores são rejeitados e muitos políticos sequer são autores de seus mandatos. Lula decerto confia no seu talento e o usa constantemente, até quando erra. Já FHC tinha outro perfil.

 

Mas não há como negar a criatividade como motor do gesto político. Quem sabe unir talento com força política, sempre se utilizou e se utilizará dessa arma.

 

 

FOTO: Flickr/Embajada de los Estados Unidos en Bolívia

Sumário