Marcia Cavallari, diretora do IBOPE e colaboradora de Marqueteiros, sempre diz que a única coisa que as pesquisas de opinião não podem prever é como elas serão noticiadas pela imprensa. Neste domingo, tivemos mais uma demonstração dessa verdade.
O Estadão veio com uma manchete bombástica sobre pesquisa do Datafolha: “Maioria apóia impeachment: reprovação de Dilma se estabiliza”. Na matéria, o jornal informa que, apesar de 63% dos entrevistados apoiarem o afastamento da presidente, 64% disseram que isso não ia acontecer. Ou seja, são a favor, mas acham que não vai acontecer.
Vamos a uma análise puramente técnica dos números. Dilma tem 63% de reprovação. Ou seja, 13% declararam que apóiam Dilma, 63% a reprovam. Trata-se de um governo mal avaliado. A maioria quer mudança e, se possível, mais rapidamente.
Vem o Datafolha e coloca no questionário a palavra “impeachment”, popularizada midiaticamente nos últimos meses. Pergunta “Você é a favor ou contra?” e obtém o mesmo resultado de reprovação da presidente. Bravo. Descobriram a América, mas incluíram a palavra “impeachment”, para sugerir um ambiente de risco institucional. O que põe em risco a confiabilidade dos números , por incitação à resposta na formulação da pergunta.
Governos mal avaliados são comuns em todo o mundo. François Hollande tem hoje quase 70% de reprovação na França, mas todos esperam, tranquilamente, a nova eleição, daqui a três anos. Essa é a lei por lá. Da mesma forma, temos leis no Brasil estabelecendo eleições para resolver a insatisfação com os governantes e fixando um calendário eleitoral para realizá-las.
Elimine-se, portanto, a palavra impeachment da agenda política (e das perguntas dos institutos) e negocie-se com o governo eleito até 2018. A não ser que apareçam provas implicando Dilma em algum ato que justifique a sua remoção, a lei determina que ela governe até lá. O diálogo é fundamental para os países com governos mal avaliados, mas sem crise institucional.
O PT foi eleito. O PSDB tem argumentos de sobra, pela experiência de seus governos, para se propor como alternativa de poder. E o PMDB, que é hoje o partidos mais forte do país, tem uma enorme responsabilidade na mão. Eu sou um eterno otimista quanto a ele. Vejo no PMDB o DNA da Constituição de 88. Vejo que ele não nos levará a um rompimento da institucionalidade.
Mas fica aí, nas manchetes, a tal palavra impeachment, que só deturpa o debate. É americanizada, sensacionalista e acirra os ânimos. A mídia deveria falar em impedimento, que é a palavra correta. Em Portugal, na Espanha, seria assim. Porque insufla menos o desrespeito à legalidade.
Parte da mídia, aparentemente, já começa a rechaçar as saídas não eleitorais para a crise política. No Bom Dia Brasil desta segunda-feira pós-manifestações em algumas cidades do país, Chico Pinheiro e outros comentaristas classificaram como crime o pedido de “intervenção militar constitucional” e apresentaram uma série de depoimentos, onde o uso do termo foi condenado como ilegal e inviável.
Mudaram a Globo e o Brasil. O exercício do direito de manifestação foi louvado, como deve ser. A realização pacífica dos protestos também foi celebrada, como deve ser. Mas já se cobram reivindicações mais claras dos grupos que foram às ruas. Cobra-se um avanço em relação à demanda central que foi apresentada nas manifestações: o fim da corrupção.
Como fazer isso? Como avançar nesse ponto? Com uma sociedade vigilante, temos muitas oportunidades de, passo a passo, eliminar as máquinas de desvio de recursos públicos, pela via da fiscalização e da punição mais efetiva. Mas passo a passo e não achando que derrubar presidentes pode produzir isso.
Nesta segunda, a Globo sinalizou que pode sepultar a palavra impeachment do atual noticiário político. Fez isso por razões que podem mudar, como dito acima. Mas não é difícil de concluir que o país segue adiante e que agora é hora de lutar por mais democracia, e para melhorar a democracia que temos.
Esse é único caminho, disse Chico Pinheiro hoje de manhã. O Brasil não vive uma crise institucional, como fazem crer certas manchetes. O Brasil vive momentos difíceis, que temos de enfrentar juntos, com diálogo e moderação.