Meu pai foi político. No início dos anos 60 do século passado, descobriu um estranho prazer. Em suas andanças pela vida dura dos habitantes do norte do Paraná, ele ouvia histórias, anotava reclamações e improvisava um discurso que agradava a platéia.
Lembro que o acompanhava nas viagens pelo interior do estado e torcia pela chegada da hora do almoço. A agenda dos encontros era organizada para que, pouco antes do meio dia, estivéssemos na casa de gente que trazia para a mesa o orgulho de reunir, numa só refeição, receitas compartilhadas por todos. Macarronada, maionese, frango assado, carnes na brasa, arroz e feijão. Um cenário recheado com afeto e a vontade sincera de ser gentil com quem se oferecia para representá-los na recém-inaugurada Brasília.
Essa é a historinha que preservo com carinho na memória dos meu 7, 8 anos de idade. Hoje, rodada na estrada da vida e do marketing político, ela permanece intacta. As agruras e percalços enfrentados por meu pai foram enterrados junto com ele.
Não creio que marqueteiro fosse uma palavra conhecida na época. Muito menos a profissão. Existiam os palpiteiros e algum assessor muito próximo, mas o pretendente a um cargo de deputado, por exemplo, tinha que suar a camisa para preparar um discurso convincente. Palavras que entrassem e permanecessem na cabeça e no coração de eleitores potenciais. E assim fez meu pai. Foi eleito deputado federal duas vezes.
Não herdei o prazer pelo corpo a corpo das campanhas eleitorais. Não me seduziam e nunca pensei em me aventurar. Mas três anos depois da morte de meu pai experimentei minha primeira campanha. Fui repórter em 1989, quando doutor Ulysses enfrentou Lula e Collor, com chances inexistentes de vitória.
Muita coisa já foi dita sobre essa campanha, mas o que faço questão de enfatizar aqui é que, depois dessa primeira experiência, muitas outras vieram. E aconteceram, principalmente, porque o prazer de conviver com profissionais mais experientes trouxe embutido um novo mundo de descobertas e possibilidades.
Conheci alguns marqueteiros que escrevem neste site e vivi a transição entre os jornalistas que comandavam campanhas políticas e os publicitários que passaram a dominá-las completamente. Comecei a entender que um bom marqueteiro pode ser mezzo a mezzo – jornalista e/ou publicitário – se tiver sido picado, em algum momento remoto de sua existência, pela mosquinha azul da comunicação política.
No mundo do meu pai, cinquenta anos atrás, o político usava menos maquiagem. Entenda-se por make up a infraestrutura montada especialmente para eleger o pretendente a algum cargo político. O circo era mais místico, mas a platéia sentava nas arquibancadas de madeira para rir do palhaço e ouvir as intenções do candidato. E dava certo.