Damos continuidade ao intento de dissecar a propaganda eleitoral negativa e seus efeitos sobre a formação do voto, com o objetivo de desmistificar a demonização sofrida pela atividade de comunicação política. Antes de dar a partida, nada melhor que olhar no retrovisor.
A frase que intitula este artigo representa o senso comum a ecoar na sociedade. Acredita-se ter havido uma era dourada na qual tudo era melhor: as frutas eram mais doces, as pessoas mais gentis, os filhos respeitavam seus pais e até os políticos mentiam menos. Não só isso; os políticos tinham propósitos honestos, perseguiam o bem comum e eram, basicamente, pessoas honradas.
Nada mais equivocado. A ciência tem até um nome para o viés cognitivo que leva a esta falsa conclusão: “Rosy retrospection”. Trata-se da percepção segundo a qual eventos passados são mais bem avaliados no presente do que eram ao tempo de sua ocorrência.
A verdade é que, desde quando se tornou necessário convencer as pessoas a obedecer a um líder, a mentira e a persuasão entraram em cena. A legitimidade que permite o exercício da dominação política não se obtém somente com a força física, nem hoje, nem ontem. A adesão dos governados – ou ao menos de parte significativa deles – é requisito essencial para o próprio desenvolvimento político da sociedade.
A propaganda política da Roma republicana pode ser vista até hoje nos muros de Pompéia, preservada em virtude da erupção que destruiu a cidade. Havia espaços abertos para que candidatos afixassem suas publicidades, bem como para que cidadãos manifestassem seu apoio a este ou aquele concorrente.
Segundo conta a história, a troca pública de ofensas entre candidatos não era admitida pela etiqueta vigente. Os ataques, sempre eles, perfaziam-se mediante falsos apoios, divulgados por meio de pinturas nas paredes das casas, com frases como “os jogadores de dados apoiam o candidato fulano” ou “as moças do prostíbulo apoiam o candidato beltrano”.
Também de Roma são as lições de Quintus Tullius Cicero ao seu famoso irmão, Marcus Tullius Cicero, quando este disputou o cargo de Cônsul. Recomendava-se que em campanha fossem feitas promessas que ele sabia não poder cumprir e que espalhasse notícias sobre os crimes e escândalos sexuais de seus oponentes; mas que desse ao povo um espetáculo cheio de cores e festa. Nada diferente do que se vê hoje em dia.
Mais adiante, na última guerra civil que precedeu a queda da República, não se pode esquecer a campanha propagandística que Otaviano empreendeu contra Marco Antônio, fazendo espalhar que este, apaixonado por Cleópatra, pretendia transferir a capital para o Egito.
Se a guerra é a continuação da política por outros meios, como Clausewitz definiu, é nela que a propaganda e a mentira encontram espaço ao longo dos séculos que seguem. O mesmo general prussiano dizia que “uma grande parte da informação obtida na guerra é contraditória, uma parte maior ainda é falsa, e de longe a maior parte é duvidosa”.
E foi, portanto, na guerra, especialmente no grande conflito de 1914, que o mundo moderno uniu pela primeira vez as técnicas recém-criadas da propaganda à mentira e à busca pelo poder supremo. A chamada “atrocity propaganda”, divulgada ad nauseam pelo Reino Unido, enfraqueceu a posição internacional da Alemanha.
Os soldados do Kaiser estupravam e matavam freiras e comiam os olhos de crianças na Bélgica, dizia-se ao mundo a partir da Wellington House, sede do poderoso “War Propaganda Bureau”. Os fatos eram sabidamente falsos, mas eficientes para macular a honra teutônica.
A partir daí, o mundo vê o nascimento da ciência da propaganda, com contribuições como as de Hopkins, de 1923, e Laswell, em 1927. Na mesma época tem início a análise e mensuração da opinião pública, com a obra de Lippmann, em 1922, e a fundação, por George Gallup, do instituto de estatística que futuramente levaria seu nome, em 1935.
Chegando ao século XXI, é fácil concluir que não se mente mais do que antes, apenas com melhor técnica. Não se manipula mais do que sempre se fez, apenas os instrumentos são outros e mais eficientes. A memoria praeteritorum bonorum, ou memória dos bons passados é, em si, uma mentira.
