O fazer político é tenaz em fabricar convergências. Eis aí uma virtude única da política e uma habilidade singular dos políticos: construir o consenso. Um oásis numa era de abundante heterogeneidade, de veloz transformação e com gosto atroz pela simplificação.
O desuso do fazer político fortalece a intolerância. Nutre um sistema empenhado em tecer apatia e estrangula os mecanismos de participação popular. Reavivar as essências do fazer político é a vocação do político altivo.
Para alguns, advogar em favor da política é marchar contracorrente. A estafa generalizada com os efeitos contraproducentes da política chega às raias da beligerância. Nasce daí um desejo incandescente das pessoas pela erradicação da política do nosso cotidiano. E há quem patrocine esse sentimento para atingir a hegemonia ou tonificar seu domínio político.
O patrocínio dessa tese dissemina a associação entre impureza e política. É uma equação coerente pelo volume de malandragens atribuídas ao ponto de chegada da política: o poder. Notadamente, a política “já foi possuída por tudo que é nêgo torto, do mangue ao cais do porto”, parodiando Chico Buarque.
Porém, mesmo injustiçada e vítima de linchamento público, a política carrega em sua gênese o pendor da redenção. O mesmo acontece com a personagem da canção. Ambas carregam glórias em sua jornada.
De fato, no seio da política não reside justiça. A política não é boa, a política não é má. A política sequer é romântica, mas inspira a aventura humana a engendrar ideais. A loucura, o amor, a esperança, a ilusão, a perversidade, a bondade são nuances da política. Juntos, elas constituem um filme. Ao ser projetado no presente, revela-se a psique de uma civilização.
A política é a paisagem construída a partir destes movimentos. Não à toa é untada em contradições e configurada por forças distintas. Por esta razão, reside nela o conflito. Afinal, é feita por homens e não por softwares.
O historiador e crítico social Russel Jacoby acha que não há nada a fazer para restaurar a utopia. Porém, isso não significa que nada deverá ser pensado, imaginado ou sonhado daqui para adiante. “O empenho em vislumbrar outras possibilidades de vida e sociedade continuam sendo urgentes”, ele diz.
O recado também vale para a política, principalmente quando sublinhamos aqui o seu valor, num momento de transformações e simplificações. O fazer político fabrica consenso e espanta o fantasma do messianismo.