O chão da política, neste momento, já se movimenta em função dos mandatos de prefeito e vereador, a disputa pelo poder municipal. É no ambiente pré-eleitoral de 2016 que se debate a reforma política, o conjunto de regras partidárias e eleitorais que deverão reger o Brasil nos próximos anos. É também no ambiente da Operação Lava Jato, que mostra bem o quanto as regras atuais apodreceram. Isso é positivo ou negativo?
A reforma é debatida a toque de caixa, para ser votada até o final deste mês de maio, se for cumprido o cronograma anunciado pelo presidente da Câmara Federal, deputado Eduardo Cunha. A razão para tanta pressa, alegada pelos próprios congressistas, é que as novas regras eleitorais passem a valer já em 2016. Ou seja: há uma influência direta da conjuntura eleitoral nos projetos de mudança da nossa política.
A expectativa é que, das ideias em debate no Congresso, retire-se um encaminhamento sério para um problema muito antigo no Brasil, que é também um problema universal: como financiar a política. O tema está no ar em todo o planeta. Há soluções banais e muito eficientes nos regramentos eleitorais de outros países, que tornam tudo mais objetivo e transparente.
Mas, aqui, querem votar tudo neste mês. Sem estudar, sem planejar, sem olhar para o futuro. Tratam de fazer uma reforma que sirva ao jogo de poder de 2016 e que se refletirá em 2108. Na verdade, as duas eleições já estão em pleno andamento. Jogam-se agora as regras que serão testadas no ano que vem, para valer mesmo dentro de três anos, quando se dará a grande batalha pelo poder central.
Essa situação gera um termo que ouvi há pouco, o “curto prazismo”. Ele ataca um Brasil atônito com tantas barbaridades, neste momento de entrada no ajuste fiscal.
Entre outras medidas, querem terminar com a reeleição. OK, é algo a ser debatido. A reeleição trouxe excelentes resultados em muitos estados e péssimos em outros. Debata-se.
Querem também unificar as eleições, algo completamente diferente. Significar eliminar as eleições intermediárias vigentes em todo o mundo, com seu valor de plebiscito para que está ou não no poder.
Querem que os próximos prefeitos governem por seis anos. Depois de 2018, o país votaria de novo em 2022, para todos os cargos eletivos existentes. E daí por diante, eleições gerais unificadas a cada cinco anos.
Um voto a cada cinco anos é o que se debate no Brasil, que vive a maior crise de representatividade política de sua história. Querem aumentar a representatividade diminuindo voto, vejam só! Seguirei batendo nesta tecla.
Alguns avanços podem ser obtidos agora. A maior responsável pelos custos de campanha que vemos hoje é a atual política de alianças. O comércio do tempo de TV e o franchising que se paga para os candidatos das campanhas dos pequenos partidos.
Sou a favor de cláusulas de barreira. Não creio que a representatividade possa ser dividida por igual com as minorias. Os partidos pequenos podem e devem atuar politicamente no marco democrático, até terem representatividade suficiente para adentrar no ambiente político institucional. Os Verdes levaram 20 anos para eleger um deputado na Alemanha. Mas sempre foram influentes.
Nesse momento, nós, os profissionais de comunicação política, estamos em pauta como os grandes vilões dos custos de campanha. O que se tem de nós é uma visão generalista, muito pobre e distorcida, que é construída pela mídia.
Somos um conjunto de empresas que servem a um segmento, que movimentam milhares de pessoas, em todo o país, de cinegrafistas a jornalistas, de editores a cabos eleitorais. Não me refiro apenas aos profissionais mais visíveis. Penso nos menos visíveis, naqueles que servem a projetos de deputados, vereadores, prefeitos, as campanhas de menor porte. As empresas locais que atuam nessas campanhas existem apenas por uma razão: existe um mercado. Uma necessidade humana. Política=Comunicação.
Marqueteiros acredita na legitimidade, na responsabilidade e na relevância da atividade da comunicação política. Imaginam colocar tetos de remuneração para o nosso trabalho. Aos olhos da sociedade, nossos preços são aviltantes. Isso não é uma verdade. Os números que se mostram são sempre os das maiores campanhas. Nas campanhas menores, no Brasil, o que grassa – e isso é bem conhecido no setor – é o calote. Campanha a campanha, milhares de profissionais ficam sem receber.
O que defendemos é um mercado regulado, com legitimidade e segurança legal, para que as empresas possam planejar seus investimentos e ofereçam os melhores serviços a seus clientes. Não somos uma republiqueta de bananas. Um profissional não pode ter seu ganho limitado, em detrimento de sua capacidade em produzir resultados. Nem na comunicação política, nem em qualquer outro ramo da atividade humana.
Mas o mar não está para peixe para nós. O relator da reforma política propõe um passo atrás, usar menos os meios de comunicação, diminuir o tempo de campanha (o que, aliás, ocorrerá pela segunda vez), diminuir os espaços de debate. Isto é, uma democracia com menos comunicação em pleno século XXI, o século das comunicações.
Disso só pode resultar uma reforma política que já nascerá vencida. Em breve, subirá o clamor para que ela seja feita de novo. E de novo não será feita, com a profundidade necessária.
O relator diz com todas as letras que “estamos trabalhando em ritmo de carnaval do Recife”. Mas, por que? Para atender com urgência a “voz das ruas”? Ou para legislar rapidamente em torno de interesses que servem, antes de tudo, aos congressistas?
É nesse ritmo que a reforma política, onde se definem os marcos de atuação do nosso criminalizado mercado, vai andar. Preparemo-nos para dançar.
Foto: Amália Souto e Silva / Flickr