Nas manifestações recentes contra e a favor do Governo Dilma, vimos as pessoas exibindo cartazes idênticos, com uma demanda comum: “Fim da Corrupção”. Isso é simples de pedir, está na boca de todo mundo, mas… como obter?
O economista norte-americano Robert Kiltgaard, um especialista em corrupção que estuda o fenômeno há muitos anos, em todo o mundo, criou uma fórmula para definir o processo: C = M + D – T.
Nessa equação, C define a corrupção. M são os monopólios, as cadeias econômicas unidas, com grande poder. D são as decisões centralizadas em poucos governantes, que aumentam os espaços para atuação dos lobistas. E o T, que vem antecipado pelo sinal de menos, é o que perdemos. Sem transparência, é o dinheiro roubado que vai para o ralo. A tarefa, então, é reorganizar e reduzir a influência dos outros elementos, para aumentar T.
A revista Veja traz as opiniões de Kiltgaard nas “páginas amarelas” desta semana. Alguns trechos:
- “O mérito da equação é não dar ênfase ao papel das pessoas, mas sim às circunstâncias onde o crime ocorre”.
- “É comum tratar a corrupção como um problema moral. Não nego que ela tenha essa dimensão. Mas, se o seu plano para combater a corrupção é mudar o sentimento e a mentalidade das pessoas, eu lhe desejo boa sorte. Será um trabalho longo, árduo e com grande possibilidade de dar em nada. Em sociedades complexas como as nossas, combater a corrupção não pode ser tarefa de pregadores e psicanalistas.”
- “É preciso adotar uma abordagem pragmática. Você deve quebrar monopólios, limitar o poder dos dirigentes e aumentar mecanismos de transparência”.
- “Não penso na corrupção como algo inerente à natureza humana, mas como fruto de oportunidades. Assim, acredito que é possível reduzí-la em muito, mesmo que seja impossível a sua eliminação.”
- “Por que o Brasil não seria capaz de avançar nessa batalha? Um país com economia pujante e diversificada, com instituições cada vez mais maduras, tem tudo para reduzir a praga da corrupção”.
- “No futuro, a corrupção será tão impensável quanto a escravidão, que já foi regra em nosso mundo. Compartilho desse otimismo”.
O olhar científico e não moral de Kitgaard sobre a corrupção explica porque o tema não tem funcionado como argumento eleitoral, nas disputas presidenciais e estaduais brasileiras dos últimos anos. Ao olhar do povo, a pregação solta entre acusações mútuas perde força e credibilidade
A população vê em todos candidatos o D da equação. De forma geral, aqueles que preferem decisões centralizadas – uma parte importante da classe política -, agem em função de manter o poder de decidir eternamente. Não importa o partido, não importa o programa de governo. Todos são iguais.
É assim também com o M, os monopólios e seus interesses. Dessa forma, apenas gritar contra C – a dita e maldita Corrupção -, de nada adianta, se não se houver um debate de medidas capazes de diminuir o poder político e econômico através de fiscalização.
O assunto tem que ser tratado como um processo. Ainda que isso enfureça certa parcela da opinião pública, que clama pelo “Fim da Corrupção” de forma imediata, com fins políticos igualmente imediatos.
O clamor não resulta em avanços porque o que se pede é impossível. Está na hora de pensar nas raízes do problema e não apenas nos efeitos. E aceitar que o trabalho é de toda a sociedade, não apenas dos políticos, que são parte interessada no assunto. Senão, nada muda.